Crítica | Coyote vs Acme: quem realmente é o vilão?
Paris Filmes/Divulgação

Crítica | Coyote vs Acme: quem realmente é o vilão?

Metalinguagem e a história do filme que quase foi cancelado

Metalinguagem e a história do filme que quase foi cancelado

Coyote passou décadas comprando produtos da mesma empresa para ser destruído por eles. Coyote vs Acme, enquanto filme, quase teve destino semelhante. Produzido, finalizado e posteriormente condenado a desaparecer por uma decisão empresarial. A Acme fictícia e a máquina corporativa que quase impediu a exibição do longa não são o mesmo, evidentemente. Mas a proximidade é desconcertante. O Coyote queria processar a empresa que transformou sua existência em uma sucessão de acidentes; o filme precisou sobreviver a uma indústria que, em determinado momento, pareceu enxergá-lo menos como obra do que como ativo.

Essa coincidência entre ficção e bastidores seria apenas uma curiosidade se não contaminasse a própria leitura do longa. A Acme funciona como uma caricatura de corporação poderosa, indiferente às consequências de seus produtos e protegida pela própria dimensão. O filme, simultaneamente, tornou-se um objeto disputado numa indústria que pode decidir que uma obra pronta vale menos como experiência artística do que como operação financeira. Coyote e o filme compartilham, assim, uma condição em que ambos são tratados como descartáveis por uma estrutura muito maior do que eles.

Sob a direção de Dave Green, essa ideia não aparece como discurso metalinguístico explícito. Ela se infiltra na narrativa. O longa acompanha Coyote depois de mais uma tentativa frustrada de capturar o Papa-Léguas, quando ele decide procurar o advogado Kevin Avery, vivido por Will Forte, para processar a Acme pelos danos causados por seus produtos. A premissa transforma uma sucessão de gags em uma espécie de investigação retrospectiva. Aquelas cenas dele se dando mal, que cansamos de ver nos episódios do desenho, deixaram de ser piadas e agora ser apresentam como prova. É uma mudança simples, mas bastante fértil.

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O Coyote continua sendo uma criatura de poucas palavras e enorme expressividade. Seu rosto, seus gestos e principalmente suas reações diante do desastre carregam uma humanidade que não depende de diálogo. A animação 2D preserva essa característica. Quando o filme recupera sua antiga perseguição ao Papa-Léguas, a sucessão de fracassos adquire uma tonalidade inesperadamente melancólica. O mundo mudou, mas ele não. Continua tentando alcançar a mesma coisa pelo mesmo caminho. Sua insistência, nesse contexto, deixa de ser apenas uma fonte de humor físico e passa a representar uma forma quase absurda de esperança.

Kevin Avery é a versão humana desse mesmo fracasso. Seu problema não é cair de um precipício, mas ter aprendido a não tentar subir. Diante da Acme, sua primeira reação é aceitar que empresas daquele tamanho não podem ser enfrentadas. Paige, sua sobrinha e estagiária, interpretada por Lana Condor, ocupa o polo contrário. Recém-formada, ainda acredita que o direito pode servir para enfrentar injustiças em vez de simplesmente negociar com elas. A dinâmica entre os três organiza boa parte do argumento do filme. Coyote não sabe vencer; Kevin esqueceu por que deveria tentar; Paige ainda não aprendeu a desistir.

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A comédia funciona melhor quando o roteiro deixa essa discussão conviver com a lógica dos Looney Tunes. A destruição de cenários, os objetos animados e as interferências cartunescas em ambientes de live-action não são tratados como atrações isoladas. A fotografia procura integrar essas duas materialidades, construindo um universo em que humanos e desenhos dividem o mesmo espaço sem precisar justificar sua convivência. O melhor exemplo é o cenário do tribunal, que, por vezes, pode ser solene e completamente absurdo ao mesmo tempo.

O catálogo dos Looney Tunes aparece, mas não domina a narrativa. Bugs Bunny, Patolino e outros personagens têm momentos próprios sem transformar a trama em uma coleção de referências. A comparação com “Uma Cilada para Roger Rabbit” surge quase inevitavelmente, sobretudo pela mistura de animação e atores reais, mas o filme de Green segue outro caminho. Enquanto a obra de Robert Zemeckis dedicava atenção à maneira como desenhos e humanos estruturavam uma sociedade comum, Coyote vs Acme trabalha no que acontece quando esses personagens entram em conflito com uma instituição.

O roteiro de Samy Burch transforma a Acme em uma caricatura da concentração de poder. Seus produtos são perigosos, seus recursos são praticamente ilimitados e sua capacidade de se defender parece proporcional ao tamanho de sua estrutura. John Cena, como o advogado corporativo Buddy Crane, aproveita esse exagero sem quebrar a lógica interna da comédia. Ele não precisa parecer um vilão de desenho porque já vive em um mundo onde a linguagem corporativa pode produzir um absurdo maior do que qualquer bigorna caindo na cabeça de alguém.

Existe ainda uma camada mais estranha na relação entre a Acme e os personagens animados. Se os desenhos podem ser esmagados, explodidos e atropelados indefinidamente sem que ninguém considere isso um problema, sua dor passa a ser tratada como parte do produto. O longa brinca com a ideia de que essa resistência quase sobrenatural poderia transformar os personagens em cobaias perfeitas. A piada nasce de uma característica histórica dos desenhos, mas termina apontando para algo menos confortável. Quem decide quais vidas podem ser sacrificadas sem que isso seja considerado um dano?

Porque Coyote vs Acme não é um filme sobre um personagem que tenta processar uma empresa. É também um filme cuja própria existência passou a carregar a experiência de ser considerado descartável. O paralelo entre Coyote e a produção não precisa ser perfeito – e talvez fique mais interessante justamente porque não é. O personagem luta contra uma corporação dentro da ficção; o filme precisou lutar contra decisões corporativas fora dela. Em ambos os casos, a questão é menos sobre derrotar um adversário do que sobre conseguir permanecer em jogo.

A história de bastidores poderia facilmente transformar a obra em mártir de Hollywood. Existe, inclusive, um risco em deixar que o episódio seja absorvido como uma eficiente peça promocional. O filme proibido, salvo pela indignação do público, finalmente chega ao espectador e converte sua própria quase-morte em argumento de venda. A indústria também sabe comercializar a revolta contra a indústria.

O filme já discutia corporações, monopólios, relações de poder e a posição dos perdedores antes que sua própria trajetória acrescentasse uma camada tão evidente à leitura. A realidade apenas tornou a metáfora mais difícil de ignorar.

Crítica | Coyote vs Acme: quem realmente é o vilão?
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Até a relação entre Coyote e Papa-Léguas participa dessa reflexão. Durante décadas, um correu e o outro fugiu porque essa era a função de ambos. Coyote vs Acme sugere uma relação menos óbvia. Talvez a perseguição seja também uma forma de vínculo. O Coyote precisa alcançar o Papa-Léguas, mas também precisa continuar tentando. Sem a corrida, o que sobra do personagem?

A pergunta poderia ser dirigida às franquias que vivem de repetir seus próprios mecanismos. Personagens permanecem reconhecíveis porque não podem mudar demais. O Coyote corre porque esperamos que ele corra. O Papa-Léguas foge porque esperamos que ele fuja. A diferença é que Green usa essa repetição para falar sobre o peso de permanecer preso à própria função.

Por isso, a história de Coyote vs Acme fora da tela não é apenas um detalhe curioso de produção. Ela funciona como uma espécie de espelho torto do que o filme já estava dizendo. O personagem tenta provar que seus acidentes não são inevitáveis. O longa, de maneira quase involuntária, precisou provar que seu desaparecimento também não era.

A Acme continua sendo uma empresa fictícia. A perseguição continua sendo uma piada. O Coyote continua caindo. Mas agora existe uma diferença, ele resolveu perguntar quem colocou a armadilha.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.