Idiotas parece chegar ao cinema carregando uma tarefa maior do que aquela que seus personagens conseguem cumprir, resgatar um tipo de comédia que, durante algum tempo, parecia ter perdido espaço nas salas. O parentesco com “Superbad” e “Se Beber, Não Case” não está apenas na coleção de sujeitos adultos tomando decisões questionáveis. Está também naquela disposição de transformar incompetência em motor narrativo, constrangimento em matéria e amizade improvável de personagens tão diferentes uns dos outros. É um retorno curioso, portanto, porque traz consigo tanto o prazer da familiaridade quanto alguns vícios que talvez pudessem ter ficado no passado.
O filme acompanha Davis e Mark, interpretados por O’Shea Jackson Jr. e Dave Franco, dois homens que recebem a missão de transportar Sheridan, um adolescente problemático vivido por Mason Thames, até uma clínica de reabilitação. A premissa já estabelece a hierarquia torta da história, os adultos não parecem particularmente preparados para cuidar de ninguém, enquanto o jovem, protegido por uma família endinheirada, tem recursos suficientes para transformar cada problema em uma nova oportunidade de complicação. O roteiro trabalha justamente nessa contradição, aproximando os três personagens por necessidade, não por afinidade.
A direção de Macon Blair (responsável pelo recente remake de “O Vingador Tóxico”) entende que a graça está no desconforto prolongado de uma situação que nem chega a terminar e começa outra ainda pior. O humor costuma ser tratado com uma seriedade quase burocrática, como se ninguém envolvido percebesse completamente o absurdo ao redor. Essa escolha dá ao filme uma personalidade própria e permite que algumas cenas cresçam pelo acúmulo de pequenas decisões ruins.
Blair também tem bastante interesse em preservar as arestas dos personagens. Davis tenta ser responsável, mas sua ansiedade frequentemente o coloca no mesmo patamar de irresponsabilidade de Mark. Mark, por sua vez, encontra em Franco um intérprete especialmente confortável com o vazio intelectual do personagem. É recomente, mas é impressionante como funciona toda vez que o personagem encara situações que exigiriam uma resposta elaborada e oferece, em troca, uma reação infantil.

O – pequeno – elenco feminino participa desse jogo, mas também expõe uma das questões menos interessantes do resgate proposto por Idiotas. Kiernan Shipka, como Irina, uma trabalhadora do sexo que demonstra estar muito mais cansada daquela situação do que os homens ao redor, encontra espaço para a ironia e para o desapego. Ainda assim, o filme recorre ocasionalmente à misoginia como combustível de gag, como se recuperar o espírito do besteirol também significasse recuperar automaticamente algumas de suas ferramentas mais gastas. Não chega a ser uma questão capaz de encerrar a discussão sobre o longa, mas é difícil não perceber que certas escolhas parecem pertencer mais ao passado do gênero do que às suas possibilidades atuais.
A fotografia acompanha essa instabilidade sem transformar a viagem em algo excessivamente estilizado. O aspecto de estrada funciona como contraponto para a confusão crescente dentro do carro e ao redor dele. A trilha sonora, por sua vez, ajuda a sustentar essa sensação de deslocamento, alternando momentos de energia com passagens que deixam o absurdo respirar. A estética não tenta disputar atenção com os personagens; Blair sabe que, nesse universo, o melhor efeito visual é deixar um sujeito completamente desorientado em primeiro plano.
Também existe uma leitura social que impede Idiotas de ser apenas uma sucessão de trapalhadas. Sheridan pertence a um mundo no qual dinheiro transforma fracasso em inconveniência temporária. Davis e Mark vivem em outro, no qual cada erro pode produzir uma consequência material imediata. A viagem aproxima essas realidades sem necessariamente conciliá-las. O roteiro, definitivamente, não está interessado em transformar essa diferença em uma grande analogia sobre classes, mas ele permanece como ruído de fundo. Alguns podem aprender com seus erros; outros precisam sobreviver a eles.
Essa é a principal ambiguidade do filme. Idiotas procura recuperar uma comédia de personagens irresponsáveis, mas também revela como esse modelo envelheceu. A energia de Superbad e Se Beber, Não Case, continua reconhecível, assim como a estrutura de amigos jogados em uma cadeia de problemas cada vez maiores. A diferença está no olhar contemporâneo sobre aquilo que antes podia passar apenas como irreverência.

Idiotas é uma comédia que parece trafegar entre duas épocas. De um lado, existe o prazer nostálgico do besteirol de estrada, com seus adultos imaturos, adolescentes insuportáveis e decisões que pioram tudo. De outro, existe a percepção de que recuperar um gênero também significa encarar aquilo que nele envelheceu mal. Idiotas encontra seu interesse nesse trânsito da vontade de rir do desastre e a curiosidade de entender por que ainda insistimos em colocar três pessoas incapazes dentro do mesmo carro.
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