50ª Mostra | ‘Uma garrafa pode esconder uma aventura’, diz diretor de O Capitão Engarrafado
Postura Digital Filmes/Divulgação

50ª Mostra | ‘Uma garrafa pode esconder uma aventura’, diz diretor de O Capitão Engarrafado

Guilherme Reis navega pelas memórias da infância em uma história de encantamento e descobertas

Guilherme Reis navega pelas memórias da infância em uma história de encantamento e descobertas

Em 2026, encontrar uma criança que prefere explorar o mundo pela própria imaginação, em vez de passar horas diante de uma tela, parece cada vez mais incomum. É justamente essa relação com a infância que move O Capitão Engarrafado, longa-metragem dirigido pelo mineiro Guilherme Reis, que integrou a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Durante a cobertura do Conecta Geek no festival, o diretor conversou com o site sobre a construção de Caio, protagonista interpretado por Tui Souza Gil. Guiado pela curiosidade, o menino transforma elementos cotidianos em possibilidades de aventura. Uma garrafa pode esconder um marinheiro, uma estrada pode levar a lugares desconhecidos e uma paisagem comum pode se tornar um universo fantástico.

Com paisagens do interior de Minas Gerais e uma atmosfera que remete a produções infantis que marcaram diferentes gerações, o filme também dialoga com um imaginário cinematográfico em que a aventura nasce daquilo que está ao alcance dos olhos.

Na entrevista, Reis fala sobre as referências que ajudaram a construir o longa, a influência de clássicos como “E.T. – O Extraterrestre” e “De Volta Para o Futuro”, além da importância de valorizar uma infância em que a imaginação não depende da tecnologia.

50ª Mostra | ‘Uma garrafa pode esconder uma aventura’, diz diretor de O Capitão Engarrafado
Carlos Alberto Jr./Conecta Geek

Conecta Geek: Caio é uma criança que, mesmo em 2026, parece pertencer a outro tempo. Enquanto muitas crianças estão conectadas a celulares, jogos e outras telas, ele encontra diversão observando o mundo ao redor. De onde surgiu a ideia de construir um protagonista com essa relação tão analógica com a infância?

Guilherme Reis: Acredito que a infância tem uma capacidade muito particular de transformar qualquer coisa em uma possibilidade de brincadeira. Caio representa um pouco dessa liberdade criativa, de uma criança que não precisa de grandes recursos para encontrar diversão e aventura. Ele observa, questiona, inventa histórias e estabelece relações com o mundo a partir da própria curiosidade. Não pensamos nele como alguém que rejeita a tecnologia, mas como uma criança que ainda consegue encontrar no ambiente ao seu redor estímulos suficientes para alimentar a imaginação. Às vezes, basta uma garrafa, uma estrada ou uma história contada por alguém.

Mas muito disso, vem do próprio Tui, que não construiu um personagem do zero, muito do Caio, na verdade, veio do próprio protagonista, que vive uma vida simples, inclusive, ele nem tem celular.

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Conecta Geek: Existe uma diferença entre valorizar uma infância mais livre e idealizar um passado sem tecnologia. Como você encontrou esse equilíbrio para que o filme não parecesse uma crítica direta ao presente?

Guilherme Reis: Essa distinção é importante. Não queríamos fazer um filme contra a tecnologia ou sugerir que as crianças precisam viver como em outras épocas. O que nos interessa é mostrar que existem alternativas de experimentar o mundo. A imaginação sempre fez parte da infância e pode continuar existindo independentemente das ferramentas disponíveis em cada geração. O filme busca valorizar experiências que acontecem no contato com as pessoas, com a natureza e com as histórias que construímos. É muito mais um convite para olhar ao redor do que uma tentativa de apontar o que está certo ou errado na maneira como as crianças vivem hoje.

Conecta Geek: Ao assistir ao longa, é difícil não lembrar de produções como “E.T. – O Extraterrestre” e “Mundo da Lua”, da TV Cultura. Quais foram as principais referências para construir esse universo e essa maneira de enxergar a fantasia?

Guilherme Reis: Essas referências fazem parte do nosso repertório afetivo e, naturalmente, acabam aparecendo de alguma maneira no trabalho. O cinema dos anos 1980 tinha uma relação muito especial com a aventura e com a capacidade de transformar situações cotidianas em experiências extraordinárias. Filmes como E.T. e De Volta Para o Futuro trabalham muito bem essa relação entre o fantástico e o universo de pessoas comuns.

Já a programação infantil da TV Cultura, especialmente nos anos 1990, tinha uma delicadeza muito particular ao abordar o imaginário das crianças. Mundo da Lua é uma referência interessante nesse sentido, mas cito também “Rá-Tim-Bum”, “Castelo Rá-Tim-Bum” e “Glub-Glub”. São produções que confiavam na inteligência e na capacidade inventiva do público infantil. Mas, mais do que reproduzir essas referências, acredito que buscamos recuperar um pouco da sensação que elas provocavam.

Conecta Geek: A imaginação de Caio também funciona como uma maneira de lidar com aquilo que ele ainda não consegue compreender. O encontro com o Capitão transforma uma brincadeira em uma jornada de sentimentos, ausências e descobertas. Como você trabalhou essa dimensão emocional sem perder a leveza da aventura?

Guilherme Reis: A infância não é um período livre de conflitos. As crianças também enfrentam situações difíceis, mas muitas vezes encontram na brincadeira uma maneira de elaborar aquilo que estão vivendo. Caio tem uma realidade que apresenta desafios, especialmente em sua relação com a mãe, e a imaginação acaba sendo uma ferramenta importante nesse processo. O Capitão surge como uma figura que amplia o horizonte do menino que nunca conheceu o pai. Nosso desafio foi permitir que a aventura tivesse essa dimensão emocional sem deixar de respeitar o olhar infantil.

Conecta Geek: As paisagens mineiras também parecem participar ativamente da imaginação do protagonista. Estradas, rios e espaços abertos ganham uma dimensão quase épica, como se qualquer lugar pudesse se tornar o ponto de partida de uma grande expedição. Qual foi a importância de filmar nesse território?

Guilherme Reis: As paisagens têm um papel muito importante na construção da narrativa. Queríamos que o ambiente não fosse apenas um cenário, mas que participasse da experiência dos personagens. O interior de Minas tem uma geografia muito particular, com paisagens que oferecem uma sensação de amplitude e, ao mesmo tempo, preservam uma identidade muito própria. Quando estamos diante de uma criança como Caio, esses espaços podem adquirir proporções enormes.

Conecta Geek: O filme trabalha com a relação entre realidade e imaginação. Como foi encontrar uma linguagem visual que permitisse ao espectador compartilhar o olhar de Caio?

Guilherme Reis: A linguagem precisava acompanhar essa maneira de perceber o mundo. Não queríamos explicar tudo ou apresentar a fantasia de maneira excessivamente didática. Existe uma beleza em deixar algumas coisas acontecerem diante do espectador, permitindo que ele também participe da descoberta. A fotografia, os enquadramentos e a relação com os espaços ajudam a construir essa experiência. Em muitas cenas, a câmera se afasta e permite que a paisagem ganhe protagonismo. Em outros, nos aproximamos dos personagens e de suas pequenas descobertas. É uma maneira de fazer com que o público também encontre espaço para imaginar.

Conecta Geek: O filme apresenta uma aventura infantil que não depende de grandes cidades ou dispositivos tecnológicos. Você acredita que o cinema brasileiro ainda precisa explorar mais histórias que encontram o extraordinário na simplicidade?

Guilherme Reis: Temos um país muito rico em histórias, personagens, paisagens e manifestações culturais. Acredito que o cinema brasileiro tem um potencial enorme justamente por poder explorar essa diversidade. Nem toda aventura precisa acontecer em um universo distante, acontecer no Centro de São Paulo ou na Zona Sul do Rio [de Janeiro]. Podemos encontrar histórias extraordinárias em lugares muito próximos de nós. Valorizar nossos territórios e nossos talentos também é uma maneira de ampliar as possibilidades do cinema nacional.

Conecta Geek: Se Caio pudesse deixar uma mensagem para as crianças que vão assistir ao filme, qual seria? E para os adultos que talvez tenham deixado de enxergar o mundo com a mesma curiosidade?

Guilherme Reis: Acho que seria um convite para continuar olhando para o mundo com curiosidade. Para as crianças, que não tenham medo de inventar suas próprias aventuras e de transformar as coisas mais simples em brincadeiras. Para os adultos, talvez seja um lembrete de que essa capacidade não precisa desaparecer quando crescemos. A imaginação também é importante para nós. Ela permite enxergar outras possibilidades, lidar com as dificuldades e descobrir beleza em lugares onde nem sempre prestamos atenção.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.