O Japão tem um dos cinemas mais influentes do mundo e neste especial você conhece alguns dos grandes mestres do século passado.

Uma coisa extremamente perceptível no grande mercado cinematográfico e audiovisual do país, seja em questão de produção ou até da exposição que certos títulos recebem em cinemas e festivais é a nítida prevalência do cinema hollywoodiano. Essa cultura da prevalência do cinema hollywoodiano é responsável por estrangular pequenas produtoras e obras que não são tão relevantes no cenário mainstream.

O foco dessa nova série de reportagens autorais do Conecta Geek, é trazer luz a realizadores clássicos e contemporâneos que fogem um pouco do eixo das produções hollywoodianas. E iniciamos falando sobre o influente cinema japonês, que carrega consigo um legado cultural, o trauma da bomba atômica e o elo com o futuro. Neste artigo vamos falar sobre 5 dos melhores diretores japoneses da século XX.

Sem mais delongas, vamos aos realizadores:

Yasujiro Ozu

Iniciamos a lista com o talvez, o mais antigo da geração de cineastas japoneses, Yasujiro Ozu começou sua carreira durante a era do cinema mudo. O diretor produziu ao todo 53 filmes, sendo 26 em seus primeiros cinco anos como diretor, e todos apenas três para o estúdio Shochiku. Primeiramente, fez uma série de comédias curtas, antes de voltar a temas mais sérios na década de 1930. Seu mais famoso filme foi “Era uma Vez em Tóquio”, citado por muitos diretores como o melhor filme de todos os tempos.

Existem dois aspectos dos filmes de Ozu que fazem com que ele se destaque como cineasta. O primeiro foi com a técnica da câmera em ângulo baixo, pela qual o autor põe-se na altura de uma pessoa sentada no tatame, que é conhecida pela crítica como “tatami shot”.

Além de Hollywood | 5 diretores japoneses da século XX
Cena do filme ‘Era uma Vez em Tóquio’ (Foto: Reprodução)

Outra técnica, que até antes do neorealismo italiano, era bastante inovador e um diferencial o Ozu, ficou conhecida como “pillow shot”. Esse estilo de filmagem consiste em planos de objetos estáticos, de natureza, sem personagens se movimentando. Há apenas o registro da passagem do tempo da imagem por um certo período da montagem da cena.

A função dessas técnicas explicam um pouco o cinema de Ozu, pois suas obras iluminam o cotidiano, as situações “pequenas”, dão-se pela repetição e, ao mesmo tempo, pelas variações no interior dessas mesmas repetições, no que escapa ao idêntico.

Esse cinema apoia-se nos mesmos lugares, nas mesmas famílias, quase sempre nos tipos que, entre idas e vindas, precisam decidir sobre que rumo tomar: podem casar, podem seguir com o pai enfermo ou idoso, podem simplesmente retornar ao grande amor do passado, o caso perdido que bate à porta. Para o olhar cinematográfico de Ozu, o ordinário é o extraordiário.

Dicas de filmes para conhecer o cinema de Yasujiro Ozu:

  • Pai e Filha
  • Era uma Vez em Tóquio
  • Bom Dia

Akira Kurosawa

Além de Hollywood | 5 diretores japoneses da século XX

Na arte não existe consenso, no entanto, dizer que Akira Kurosawa foi um dos cineastas mais importante do Japão, e do mundo é bem próximo disso. Com 50 anos dedicados ao cinema, tendo dirigido 32 filmes durante sua carreira, Kurosawa acumulou muitos prêmios, entre eles, a Palma de Ouro, em Cannes, O Leão de Ouro em Veneza, além de ter ganho um Oscar pelo conjunto de sua obra.

Seu trabalho se caracterizou por abordar o sentimento humano em suas multiplicidades de facetas. Talvez seja o maior ou pelo menos um dos grandes cineastas que se preocuparam profundamente com a natureza humana nas suas manifestações ambíguas, nos mais diferentes contextos trazidos nas suas criações cinematográficas. Tudo isso junto com uma grande versatilidade, ele trabalhou em grandes produções, em obras minimalistas e outras com muito tons experimentais.

Tanto é, que ele trouxe em todos os filmes de vários gêneros, mesmo aos filmes de samurais, aparentemente semelhantes aos filmes de faroeste americanos, gênero que ele criou, aspectos peculiares desta forma de ser do povo japonês, muitas vezes estranhos aos olhos ocidentais. Ao se dar conta de que seus filmes não conseguiam ter a aceitação dentro do Japão, ignorados pelo próprio povo cujos valores busca defender, que lhe sugerem dolorosamente que não mais compartilham com ele, Kurosawa começa a expressar seu desencanto.

Cena do filme ‘Sonhos’ (Foto: Reprodução)

Com essa bagagem, mais que um diretor respeitado pela crítica especializada, Kurosawa nunca deixou de ser pop e entender que reproduzir o passado no presente poderia ser um olhar para o futuro, basta ver que suas obras influenciaram “Star Wars” e “Samurai Jack”, por exemplo.

Resumir Kurosawa em poucos parágrafos é tão difícil do que dimensionar sua importância para a arte. Afinal, poucos criadores tão longevos tiveram obras importantes em momentos tão distantes. O melhor a fazer é assistir e refletir suas obras.

Dicas de filmes para conhecer o cinema de Akira Kurosawa:

  • Os 7 Samurais
  • Ran
  • Yojimbo – O Guarda-Costas
  • Sonhos

Ishiro Honda

Além de Hollywood | 5 diretores japoneses da século XX

Se Kurosawa flertava com a linguagem pop, Ishiro Honda é facilmente o nome mais importante da massificação da cultura pop japonesa no globo. Diretor do primeiro filme do monstro “Godzilla” (originalmente, Gojira), em 1954, ele inaugurou oficialmente um gênero de entretenimento fundamental dentro da chamada cultura pop japonesa: O tokusatsu – termo que designa os efeitos especiais no Japão – começou no cinema e logo invadiu a TV.

Honda soube dar o tom certo de terror e aventura para a primeira produção de Godzilla, visto como uma força da natureza. Ao criar imagens épicas e icônicas de destruição massiva, ajudou a definir todo um gênero. Além da direção, Honda também assinou o roteiro do filme, escrito em parceria com Takeo Murata (“Rodan!… O Monstro do Espaço”). O projeto foi inspirado no filme estadunidense “O Monstro do Mar”, mas seguiu um caminho próprio, alcançando muito mais sucesso e sedimentando a carreira de seu diretor, um profissional em ascensão na época.

Cena do filme ‘King Kong vs. Godzilla’ (Foto: Reprodução)

O grande diferencial é porque fazia menos de uma década que as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki haviam sido alvos de bombas atômicas, quando, Honda transpôs para as telas do cinema as angústias daquele trauma nacional. Se no ocidente o pelos filmes de Godzilla se dá pelo simples apreço por filmes de monstros se batendo, os japoneses deram forma ao horrores da guerra, criaram uma boa representação dos efeitos da intervenção humana na natureza.

Ao mesmo tempo, os filmes de Honda que não estão ligados à série Godzilla também valem a pena, já que ele tinha um talento especial para dirigir vários filmes memoráveis ​​de ficção científica e ação, alguns divertidos e patetas, e outros surpreendentemente sombrios. Todos os seus filmes parecem claramente seus, e por como ele foi capaz de impulsionar os gêneros de ficção científica e de kaijus -é um termo japonês comumente associado a mídias envolvendo monstros gigantes-, seu nome merece ser reconhecido.

Dicas de filmes para conhecer o cinema de Ishiro Honda:

  • Godzilla
  • O Vapor Humano
  • O Monstro da Bomba H

Kaneto Shindô

Se Honda fez essa ponte com o Ocidente com seus filmes, Kaneto Shindô, mesmo hoje sendo reconhecido como um dos maiores mestres do horror, só conseguiu tal reconhecimento de uns tempos para cá. Ele nasceu na província de Hiroshima em 1912, testemunhando as transformações culturais mais marcantes do Japão, desde o período em que o país se uniu ao Eixo durante a Segunda Guerra Mundial até os devastadores ataques atômicos dos Estados Unidos em sua terra natal.

Sua vida, a despeito das tragédias que o circundava, foi dedicada integralmente ao cinema, tornando-se um verdadeiro pioneiro na produção de filmes independentes no Japão. Sua obra é tanto vasta quanto impactante, tendo dirigido 48 filmes e escrito roteiros para mais de 200 ao longo de seus incríveis 100 anos.

Shindô enxergava o cinema como uma forma de arte da montagem e da resolução de um exercício conflitante entre imagem e movimento. Ele nos convida a pensar no cinema como a arte da fotografia em seu estado cinético ilusório. Shindô , resgatando tanto a influência do teatro Nô quanto o Kamishibai (teatro de papel), realça a importância do não-movimento para nos lembrar da essência radical do cinema, que reside na ininterrupta sucessão de momentos estáticos.

Construindo essa identidade estética, os temas que abundam o imaginário do diretor: o imaginário desperto quanto onírico. Seu cinema de horror, em especial, se destaca pela habilidosa combinação de elementos do mundo real com o sobrenatural, mesclando dramas contemporâneos e tradições ancestrais de maneira única.

Além de Hollywood | 5 diretores japoneses da século XX
Cena do filme ‘Onibaba – A Mulher Demônio’ (Foto: Reprodução)

Shindo não só revelou uma cumplicidade estética e temática com o cinema japonês da época, como também se encarregou de trazer um legado importantíssimo – corroborando assim as teorias de Rosenbaum e Burch de que o cinema japonês alcançou o auge ao perseguir as suas principais consternações sem a influência da indústria de Hollywood ou de outras cinematografias.

Dicas de filmes para conhecer o cinema de Kaneto Shindô:

  • Onibaba – A Mulher Demônio
  • O Gato Preto
  • A Ilha Nua

Hayao Miyazaki

Um elo entre o passado e o presente Hayao Miyazaki revolucionou o mundo da animação. Seus filmes geralmente apresentam temas recorrentes, como ecologismo, pacifismo, amor, família. Também são caracterizados por nunca criarem um antagonista que careça de características redentoras. No tocante ao ecologismo, o diretor aponta para a fragilidade da Terra e enfatiza o seu desgosto por uma tecnologia excessiva e por uma cultura moderna “vazia e falsa”, sendo também um crítico do capitalismo e da globalização e seus efeitos na vida das pessoas.

Miyazaki é, principalmente uma pessoa antiguerra. Esse tema percorre seus longas de forma direta ou indireta e seus antagonistas não representam o mal tradicional dos filmes ocidentais, mas sim as raízes do mal no pensamento budista: a ganância, a má vontade e a desilusão.

Cena do filme ‘Princesa Mononoke’ (Foto: Reprodução)

Outro ponto muito forte nos filmes de Miyazaki é o protagonismo feminino. Suas animações, quando não são protagonizadas por uma mulher forte, geralmente apresentam uma personagem feminina em um papel importante na trama. O próprio diretor descreveu as suas personagens como “meninas corajosas e autossuficientes que não pensam duas vezes sobre lutar por aquilo que acreditam com todo o seu coração”. Dotadas de personalidade e características complexas e individuais, geralmente ausentes em produções estadunidenses, as mulheres dos filmes de Miyazaki se destacam por suas jornadas de amadurecimento, nas quais descobrem suas características mais fortes e individuais.

Dicas de filmes para conhecer o cinema de Hayao Miyazaki:

  • Princesa Mononoke
  • Meu Amigo Totoro
  • A Viagem de Chihiro
  • O Serviço de Entregas da Kiki
  • Vidas ao Vento

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