Crítica | Doctor Who – 1×04: 73 Jardas e uma nova garota abandonada

Por mais irônico que isso possa parecer, alguns dos melhores episódios de Doctor Who quase não apresentam o Doutor.Basta ver “Blink”, da 3ª temporada da série moderna, em que Sally Sparrow (Carey Mulligan), é deixada sozinha contra os Anjos Lamentadores. Ou “Turn Left”, da 4ª temporada, onde Donna Noble (Catherine Tate), é enviada para um universo paralelo no qual ela nunca conheceu o Doutor. Neste novo episódio, “73 Jardas” junta-se a essa brilhante lista.

Depois de pousar na costa acidentada do País de Gales, o Doutor (Ncuti Gatwa) pisa acidentalmente em um círculo de fada e destrói uma parte dele. Em seguida Ruby (Millie Gibson) lê dois bilhetes que estavam ali. Com a função desses dois elementos acabam por fazer o Doutor desaparecer. Claro, é aí que o monstro aparece, assumindo a forma de um espectro misterioso – confuso para a percepção humana e referido como “A Mulher” por Ruby – essa “coisa” segue suas vítimas a uma distância exata de 73 jardas (ou 66,7 metros). Acontece que sua presa é – você adivinhou – a Ruby.

Rica em ameaça e atmosfera, esta é uma daquelas ideias simples e assustadoras que o showrunner Russell T Davies faz tão bem. A perseguidora de Ruby parece ser uma mulher normal e as pessoas que interagem com a companheira do Doutor conseguem ver a senhora. O que torna tudo mais assustador é esse fator misterioso e saber que está sempre perseguido, algo que, guardadas as devidas proporções, lembra a premissa de “Corrente do Mal”.

Crítica | Doctor Who – 1×04: 73 Jardas e uma nova garota abandonada
Círculo mágico catalizador dos eventos do episódio (Foto: Reprodução/BBC)

Ruby está presa: ela não consegue se aproximar da Mulher a uma distância de 73 jardas; nem ela pode pedir a outras pessoas que o façam. Quando alguém chega perto o suficiente da Mulher para ouvi-la falar, essa pessoa acaba fugindo aterrorizado da Ruby. Sem nenhum Doutor para salvá-la, Ruby viaja para Londres para tentar se livrar de seu perseguidor, mas não consegue, e até sua própria mãe, Carla (Michelle Greenidge), acaba trocando as fechaduras e pedindo que Ruby nunca mais apareça depois que interage com a Mulher.

A fantasia em Doctor Who

A causa do desaparecimento do Doutor acaba sendo a mesma do aparecimento da Mulher. No País de Gales, Ruby perturbou um “anel de fadas”, um círculo de barbante aparentemente inócuo, cheio de escrita misteriosa e encantos. No entanto, se quisermos acreditar no folclore celta, ele também é a fonte de uma antiga maldição.

Mais uma vez, Doctor Who está abraçando a fantasia, e sua experimentação com o sobrenatural deu ao programa uma roupagem intrigante. Embora episódios recentes tenham envolvido deuses e duendes coloridos, em 73 Jardas é totalmente mais sinistro. A cena, por exemplo, em que os habitantes locais contam uma história sobre a bruxaria galesa, sobre como o País de Gales é uma terra poderosa “impregnada de sangue”, é uma aula magistral de pavor que se arrasta lentamente. Não é surpreendente, talvez, considerando que o próprio Davies é galês.

O show é de Millie Gibson

Fora da sombra de Gatwa, Gibson faz um excelente trabalho ao vender a desesperança desesperada de uma mulher condenada à alienação. O terror mais comovente não se limita a sangue e fantasmas, mas trata dos medos que guardamos no fundo de nossos corações. O terror aqui não está em ser seguido pela Mulher, mas na ideia arrepiante de ser abandonado por todos que você ama – de estar completamente, totalmente sozinho.

É um medo agravado pelo ato final do episódio, em que Ruby, tendo aparentemente aceitado seu destino, vive até seus 40 anos – apresentando uma Gibson duvidosamente envelhecida – não temendo mais a Mulher.

Mas em outra reviravolta, A Mulher não é a verdadeira vilã de 73 Jardas. Esse prêmio pertence ao “monstruoso” novo primeiro-ministro britânico Roger ap Gwilliam (Aneurin Barnard) – um personagem não muito diferente da ditadora Vivaenne Rook, vivida por Emma Thompson (“Boa Sorte, Leo Grande”) em “Years and Years”, série do mesmo Russell T Davies.

Crítica | Doctor Who – 1×04: 73 Jardas e uma nova garota abandonada
A Mulher, que sempre fica a 73 jardas de distância de Ruby (Foto: Reprodução/BBC)

Antes de tudo acontecer, na cena inicial do episódio, o Doutor explica para a Ruby que Gwilliam um dia se tornará o Primeiro Ministro que inicia uma guerra nuclear. Pois bem, tantas décadas depois, quando Ruby estiver mais velha e a profecia do Doutor se tornar realidade, ela planeja salvar o mundo. Sabendo o modus operandi da Mulher, ela fica a exatas 73 jardas de Gwilliam, que ao dialogar com a mulher ele sai correndo e não assume o parlamento.

Em seu leito de morte, Ruby se pergunta se salvar o mundo era o propósito da Mulher – e dela – o tempo todo. Davies retém as respostas, levando a um final enigmático em que Ruby morre apenas para se encontrar de volta ao País de Gales, no dia em que ela e o Doutor desembarcaram. Desta vez, porém, ela é a Mulher, observando-a de longe e alertando-a para não tocar no círculo das fadas. Um aviso que, desta vez, a jovem Ruby atende.

73 Jardas nos mostra mais uma garota abandonada pelo Doutor, mesmo que sem querer. Essa temática, que já traumatizou muitos whovian – sobretudo os fãs de Amy Pond – serve para mostrar do quão diferente Ruby é das antigas companheiras do Doutor.

Alguns podem achar a falta de explicação frustrante, mas eu diria que a questão é a ambiguidade. Afinal, o Doutor e Ruby se intrometeram em coisas antigas e incognoscíveis. Este não é um episódio de Doctor Who para procurar a razão. É um episódio para sentir.

Leia as críticas dos episódios anteriores:

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