Quando uma banda decide abandonar a preocupação em parecer “coerente” dentro de uma tradição específica do rock brasileiro, algo curioso acontece: as referências deixam de soar como acúmulo e passam a funcionar como linguagem. É exatamente nesse território instável – e bastante contemporâneo – que Tangolo Mangos constrói PEDAGIOS Y CARONAS, segundo álbum do grupo baiano lançado pela DeckDisc. Um disco de meia hora que parece operar em fluxo contínuo, como se cada faixa estivesse tentando escapar da anterior sem jamais romper completamente com ela.
Existe uma inquietação específica atravessando essas dez músicas. Não exatamente uma ansiedade geracional caricata, dessas embaladas em discursos sobre hiperconectividade ou excesso de informação, mas algo mais concreto. A sensação de deslocamento. A mudança de Salvador para São Paulo aparece como pano de fundo subjetivo do álbum, ainda que raramente verbalizada de forma literal. O trânsito entre cidades, hábitos, ritmos urbanos e memórias regionais acaba reorganizando a maneira como a banda compõe. Não se trata de um disco “sobre estrada”, embora o título sugira isso. É mais um álbum sobre suspensão. Sobre estar entre lugares.
Essa sensação aparece logo nos primeiros minutos. “ARMADURA ARMADILHA” abre o disco com guitarras em estado de combustão, bateria pulsando em dinâmica crescente e um tipo de urgência melódica que aproxima o grupo tanto do power pop quanto de certo rock japonês contemporâneo – ou abertura de anime, conforme citado nos comentários do vídeo abaixo. A música parece sempre prestes a acelerar mais um pouco. Nesse movimento mora um dos traços mais fortes da banda: nenhuma ideia permanece intacta por tempo suficiente para se cristalizar.
Em muitos discos brasileiros recentes, especialmente os ligados ao universo alternativo, existe uma tendência quase protocolar ao minimalismo emocional. As bandas parecem receosas em soar expansivas, melódicas ou excessivamente coloridas. O Tangolo Mangos vai na direção contrária. Há exagero em PEDAGIOS Y CARONAS. Mas um exagero arquitetado com precisão. As canções acumulam texturas, pequenas viradas harmônicas, mudanças de andamento e sobreposições instrumentais sem perder a noção de refrão. É música pensada para causar estranhamento e, ao mesmo tempo, permanecer acessível.
A produção assinada em parceria com Apu Tude ajuda a sustentar essa lógica. Gravado em Salvador, o álbum preserva uma crueza importante. Mesmo nas faixas mais elaboradas, existe uma sensação de banda tocando junta, reagindo em tempo real aos próprios impulsos. O disco evita aquele acabamento excessivamente polido que costuma neutralizar trabalhos baseados em dinâmica. Os instrumentos respiram. O baixo frequentemente ocupa espaços melódicos em vez de apenas reforçar a harmonia, enquanto as guitarras transitam entre camadas de fuzz, timbres limpos e intervenções quase psicodélicas sem soar demonstrativas.
“EU E VOCÊ (SKARÊNCIA)” talvez seja o exemplo mais imediato dessa elasticidade estética. O ska funciona como uma ferramenta rítmica. A faixa parece entender que, em 2026, gêneros musicais já não funcionam como identidades fixas. Eles operam como arquivos disponíveis. O Tangolo Mangos consulta esses arquivos o tempo inteiro, mas dificilmente se acomoda neles. Quando o disco se aproxima do dream pop, imediatamente surge uma percussão de matriz nordestina; quando parece caminhar para um rock noventista mais tradicional, aparecem linhas melódicas que lembram trilhas de videogame, city pop japonês ou soul brasileiro setentista.
“DOMINÓ”, uma das músicas mais comentadas do trabalho, sintetiza boa parte desse raciocínio. Existe nela um clima quase solar, uma suavidade harmônica que remete ao cancioneiro pop brasileiro mais sofisticado, mas tudo parece levemente fora do eixo. A guitarra nunca repousa completamente, os vocais carregam certa melancolia subterrânea e a estrutura da composição evita resolução fácil. O subtítulo “(Citação: Falando Nisso)” já indica esse jogo fragmentado entre referências, memória e deslocamento narrativo.
Em termos líricos, o álbum prefere trabalhar com imagens móveis a construir discursos fechados. Não há excesso de confissão direta, embora o sentimento de desgaste emocional atravesse boa parte das músicas. “OHAYO SARAVÁ” transforma cotidiano em colagem simbólica; ARMADURA ARMADILHA aproxima vulnerabilidade emocional de imagens quase medievais; “LUA DE FOGO” parece surgir de um sonho urbano interrompido por ruídos elétricos. Mesmo quando o grupo aborda temas mais concretos, como em “GERAIS DO RIO PRETO”, existe uma recusa em transformar crítica social em slogan. A canção fala de fome, alienação e violência cotidiana sem abandonar sua natureza musicalmente mutante.
O aspecto mais interessante do álbum, para quem vos escreve, está nessa relação entre fluidez e identidade. Durante muito tempo, parte do rock brasileiro alternativo pareceu aprisionada numa espécie de reverência histórica permanente. Como se inovar significasse apenas atualizar timbres de bandas inglesas ou norte-americanas para novas plataformas digitais. O Tangolo Mangos trabalha de outra maneira. O grupo parece compreender que escutar música em 2026 envolve simultaneidade. O ouvinte contemporâneo transita entre samba, hyperpop, metal, reggae, MPB setentista, trilha de anime e pagodão no mesmo intervalo de tempo. Ignorar isso talvez seja menos uma defesa estética e mais uma limitação perceptiva.
Por isso, PEDAGIOS Y CARONAS soa tão interessado em movimento. Não apenas movimento geográfico, mas movimento cultural. “VOU ACORDAR COM ESSA NOVA IDEIA NA CABEÇA”, que encerra o disco, funciona como a melhor síntese dessa proposta. A música começa quase contemplativa, abraçando elementos de samba-rock, até desembocar numa pulsação ligada ao pagodão baiano sem parecer caricatural ou calculada. O arranjo entende essas conexões como continuidade histórica, não como choque exótico de referências.
Essa postura também desloca certos estigmas ligados à música produzida em Salvador. Ainda existe uma leitura reducionista que tenta enquadrar a cidade apenas por suas manifestações mais exportadas culturalmente. O Tangolo Mangos opera contra essa simplificação. Não negando essas heranças, mas ampliando o campo possível de interpretação sonora da cidade. O grupo entende a tradição baiana como algo expansivo, contaminável, aberto a ruídos externos. Por isso, o disco provoca essa sensação curiosa de vertigem leve.
As músicas nunca permanecem imóveis. Elas deslizam entre estilos, reorganizam centros gravitacionais, trocam de pele no meio do caminho. Mas fazem isso sem abandonar o prazer pop, sem transformar experimentação em exercício hermético. Existe humor aqui. Existe desejo de comunicação. Existe refrão. Só que tudo aparece atravessado por uma percepção muito contemporânea de fragmentação cultural.
Ao final da audição, fica menos a impressão de ter escutado um “álbum de rock” e mais a sensação de ter acompanhado uma banda tentando reorganizar o próprio idioma enquanto toca. PEDAGIOS Y CARONAS é a percepção de que a identidade musical não precisa ser estabilizada. Pode ser trânsito. Pode ser ruído. Pode ser essa tentativa permanente de encontrar pertencimento no deslocamento.
Leia sobre outros discos:






















Deixe uma resposta