50ª Mostra | Chicas Tristes; O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas
Colagem | Conecta Geek

50ª Mostra | Chicas Tristes; O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas

Depois de mais de trinta filmes assistidos ao longo da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, duas obras seguiram ocupando espaço na memória dias depois das sessões. Curiosamente, ambas falam espanhol, ambas olham para a América Latina sem filtros exóticos e ambas encontram sua força na observação de personagens que tentam preservar algo precioso em meio às transformações do mundo ao redor.

Em Chicas Tristes, Fernanda Tovar filma a adolescência mexicana e uma amizade à beira da mudança. Em O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas, Èlia Gasull Balada e Matteo Norzi acompanham a artista peruana Sara Flores enquanto sua arte se torna também uma forma de resistência. Ficção e documentário caminham por trilhas diferentes, mas compartilham a mesma sensibilidade para os afetos, para os silêncios e para aquilo que forma a identidade de um povo. Não por acaso, acabaram se revelando duas das descobertas mais marcantes desta edição da Mostra para quem vos escreve.

Chicas Tristes

50ª Mostra | Chicas Tristes; O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas
Colectivo Colmena/Divulgação

Existe uma cena-ritual recorrente em filmes Coming of Age (subgênero de histórias sobre amadurecimento e transição da juventude para a vida adulta): alguém entra na água acreditando que continua sendo a mesma pessoa e emerge carregando algo que ainda não sabe nomear. Chicas Tristes, de Fernanda Tovar, nasce desse instante suspenso entre um mergulho e outro. Não por acaso, suas protagonistas são nadadoras. O filme entende que a adolescência, assim como a prática esportiva, também é um exercício de respiração. Prender o ar quando tudo dói, voltar à superfície quando finalmente se encontra força para continuar.

O ponto de partida é uma amizade. Mas reduzir o filme a isso seria ignorar a riqueza de tudo o que transborda dessa relação. Piscinas, salas de aula, festas, conversas atravessadas e silêncios difíceis. Tovar constrói um retrato extremamente reconhecível para quem cresceu neste lado do continente. Existe uma latinidade pulsando em cada canto da narrativa. Não aquela transformada em cartão-postal ou folclore para exportação, mas a que habita os pequenos gestos cotidianos. A dinâmica familiar, o jeito como amigos ocupam a casa uns dos outros, as ruas, a música, os olhares e até a forma como determinados assuntos circulam sem jamais serem ditos em voz alta.

Tovar, que também assina o roteiro, demonstra uma sensibilidade ímpar para filmar a adolescência sem que ela se torne uma coleção de aprendizados ou traumas exemplares. Seu olhar está voltado para aquilo que geralmente escapa das narrativas de formação mais tradicionais. Os desconfortos que permanecem sem explicação imediata, as amizades que mudam de forma antes mesmo que seus participantes percebam e as emoções que levam tempo para encontrar linguagem. O crescimento de Maestra (Rocio Guzmán) e Paula (Darana Álvarez) surge aos poucos, acumulado em ausências, hesitações e pequenas mudanças de comportamento que alteram completamente a forma como uma olha para a outra.

Essa delicadeza narrativa encontra uma tradução visual igualmente sofisticada. A fotografia de Rosa Hadit Hernández trabalha com uma luz quente e acolhedora que envolve as personagens. Existe um cuidado constante na composição dos enquadramentos, especialmente na maneira como Maestra e Paula compartilham o espaço. Em diversos momentos, a câmera organiza seus corpos dentro do mesmo quadro através de simetrias, reflexos e movimentos semelhantes, estabelecendo visualmente uma conexão que antecede qualquer diálogo. Quando essa relação atravessa momentos de tensão, a encenação também muda. As distâncias aumentam, os enquadramentos respiram de outra forma e o espaço passa a evidenciar a ruptura emocional.

A construção estética do filme reforça essa identidade. Os letterings inseridos na narrativa dialogam com a subjetividade das protagonistas, enquanto a trilha sonora contribui para uma atmosfera de intimidade que nunca soa artificial. Tovar utiliza a direção de arte para revelar o mundo interior de quem a habita. O mesmo cuidado aparece nos personagens secundários, que jamais existem apenas para movimentar a trama. Amigos, familiares e irmãos compõem uma rede afetiva que amplia a dimensão humana da narrativa.

O que torna Chicas Tristes tão especial, porém, é sua recusa em separar afeto e realidade. O filme fala sobre amizade feminina, apoio, descoberta e amadurecimento, mas também sobre os silêncios que permitem determinadas violências se perpetuarem. Faz isso sem abandonar a ternura que atravessa toda a obra. Fernanda Tovar entrega um filme profundamente mexicano e, ao mesmo tempo, profundamente latino-americano. Um filme que reconhece a beleza presente nas relações de cuidado sem ignorar as dores que as atravessam.

A água continua a mesma. A piscina continua a mesma. Mas algo mudou. E Chicas Tristes compreende com enorme sensibilidade que crescer quase nunca significa chegar a algum lugar. Significa emergir carregando uma nova versão de si, ainda sem nome, mas impossível de deixar para trás.

O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas

50ª Mostra | Chicas Tristes; O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas
Shipibo Conibo Center/Divulgação

As motosserras costumam ser barulhentas. O curioso é que O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas encontra uma forma de responder a esse ruído sem elevar a voz. O documentário de Èlia Gasull Balada e Matteo Norzi entende que algumas resistências não se manifestam pelo confronto direto, mas pela permanência. Pela arte que continua sendo feita. Pela memória que continua sendo transmitida. Pela floresta que insiste em existir apesar de tudo o que trabalha diariamente para apagá-la.

Acompanhando dois anos da vida da artista peruana Sara Flores, importante representante da tradição kené do povo Shipibo-Konibo, o filme opera como um retrato, mas também como um mapa. Não daqueles que delimitam territórios em linhas retas e fronteiras arbitrárias. Seu desenho está nos tecidos, nos grafismos, nos rios, nas histórias familiares e na relação espiritual que une pessoas e paisagem. Cada pintura surge como uma espécie de arquivo vivo, um gesto artístico que registra aquilo que a modernidade frequentemente tenta transformar em ruína.

Talvez por isso a grande virtude da obra esteja na confiança depositada na imagem. Balada e Norzi evitam a armadilha do documentário excessivamente explicativo e apostam numa construção sensorial. A câmera passeia pelos padrões criados por Sara como quem tenta aprender uma nova linguagem, enquanto a montagem costura tempos distintos com delicadeza rara. O resultado é uma narrativa que não apenas informa sobre uma artista, mas nos aproxima de sua percepção de mundo.

Essa estratégia encontra eco na própria protagonista. Sara possui o tipo de carisma que não exige performance. Sua presença ocupa o quadro de forma magnética, seja diante de galerias internacionais, seja em conversas íntimas com a família. O filme é particularmente inteligente ao não transformá-la em uma figura santificada. Pelo contrário: permite que convivam a liderança política, a avó afetuosa, a mulher divertida que experimenta presentes de uma marca de luxo e a artista que continua preocupada com questões bastante concretas, como o sustento da família e a continuidade de seu trabalho.

É justamente nessa coexistência de dimensões que a obra encontra sua camada mais rica. As contradições do nosso tempo aparecem sem didatismo. O reconhecimento internacional de Sara não elimina as ameaças enfrentadas por seu povo. O sucesso comercial não dissolve a urgência da preservação ambiental. A circulação de sua arte pelo mundo tampouco reduz a vulnerabilidade dos territórios indígenas. O documentário compreende que essas tensões não precisam ser resolvidas para serem discutidas. Basta observá-las honestamente.

Quando finalmente assume de forma mais frontal seu caráter político, o filme já realizou algo mais importante do que convencer. Fez o espectador sentir. Sentir a beleza das obras, o peso da destruição ambiental, a angústia do desaparecimento cultural e a força daqueles que continuam resistindo. E então voltamos ao som que atravessa toda a experiência. De um lado, o ruído metálico que corta a floresta. Do outro, as mãos de Sara desenhando padrões que sobreviverão ao tempo. O documentário sabe qual dos dois sons merece permanecer ecoando depois que as luzes da sala se apagam.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.