Crítica | Cinco da Tarde e os caminhos que desaparecem entre um cômodo e outro
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Crítica | Cinco da Tarde e os caminhos que desaparecem entre um cômodo e outro

Existe uma diferença sutil entre não saber para onde ir e escolher caminhar sem destino. Cinco da Tarde ocupa exatamente esse intervalo. Seu movimento inicial aponta para uma travessia emocional bastante específica – o luto, a reconstrução dos afetos, a possibilidade de um recomeço – mas, à medida que avança, a sensação é de que a própria narrativa passa a questionar o percurso que havia desenhado para si. Não como uma ruptura, mas como um estado de hesitação permanente. É aí que o filme encontre sua identidade mais interessante e, ao mesmo tempo, sua maior fragilidade.

A história acompanha Anabel (Bárbara Luz), adolescente que tenta reorganizar a própria vida após a morte da avó, figura central em sua rotina afetiva. O vazio deixado por essa ausência abre espaço para a aproximação de Meiko (Sharon Cho), uma jovem vizinha reservada que, pouco a pouco, passa a ocupar um lugar cada vez mais significativo em seus dias. Entre encontros discretos, conversas incompletas e longos momentos de observação, as duas constroem uma relação marcada menos pelo não-dito suspenso entre elas.

Ambientado durante os anos da pandemia, o longa evita transformar aquele contexto em tema principal. No entanto, o isolamento está presente em todo o longa, seja na incapacidade das personagens de traduzirem em palavras aquilo que sentem, como na linguagem cinematográfica, sobretudo no uso excessivo de planos fechados com desfoque, dando essa sensação de isomalento, mesmo que uma personagem esteja ficamente perto da outra. Nesse sentido, a pandemia funciona como uma espécie de extensão do estado emocional que já habita aquelas jovens.

A escolha é coerente com a proposta estética adotada pela direção de Eduardo Nunes. O filme se interessa por pequenas variações de humor, mudanças quase imperceptíveis de comportamento e momentos que poderiam passar despercebidos em uma abordagem mais convencional. A câmera observa mais do que interfere, por vezes nos colocando numa perspectiva de um voyeur, escondidos entre os apartamentos. Os silêncios recebem o mesmo peso dramático que os diálogos. Em muitos momentos, a impressão é de que estamos acompanhando pessoas tentando existir dentro de sentimentos que ainda não compreendem completamente.

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Essa aposta no cotidiano inevitavelmente aproxima o filme de uma tradição cinematográfica bastante específica. Em determinados instantes, a influência de Yasujirō Ozu parece surgir não apenas na construção dos enquadramentos, mas também na busca por uma dramaturgia que encontra significado nas pausas e nos espaços vazios.

O problema é que referências carregam seus próprios riscos. Quando a admiração por uma linguagem se torna mais evidente do que a necessidade de transformá-la, surge uma espécie de tensão entre homenagem e dependência. É justamente nesse território que Cinco da Tarde parece oscilar durante boa parte de sua duração.

O trabalho de fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro Jr. – que já havia trabalhado Nunes em “Sudoeste” – é provavelmente um de seus elementos mais consistentes. Existe um cuidado rigoroso na composição dos quadros, uma atenção permanente à arquitetura dos espaços e aos rostos das personagens. Cada imagem parece pensada para destacar uma sensação específica de ausência. A luz, muitas vezes suave e difusa, cria uma atmosfera melancólica que atravessa toda a obra sem precisar sublinhar emocionalmente aquilo que já está presente na narrativa.

Não se trata apenas de beleza visual. A fotografia participa ativamente da construção dramática. Os ambientes vazios ganham peso narrativo. Corredores, janelas, quartos e ruas silenciosas deixam de funcionar como simples cenários para se transformarem em extensões do estado emocional das protagonistas.

A mesma delicadeza aparece na condução das interpretações. Grande parte do trabalho dramático acontece através de microexpressões, olhares desviados e reações mínimas. O filme confia profundamente na capacidade do espectador de preencher lacunas, interpretar silêncios e construir sentidos a partir de detalhes. Quando funciona, produz momentos brilhantemente sensível. Quando não funciona, corre o risco de transformar sua contenção em distância. Porque existe uma diferença importante entre sutileza e repetição.

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Ao longo do desenvolvimento, a narrativa frequentemente retorna às mesmas sensações sem necessariamente expandi-las. O luto continua sendo o luto. A solidão continua sendo a solidão. A descoberta afetiva continua orbitando as mesmas inquietações. A contemplação se torna tão dominante que, em alguns momentos, a história parece permanecer estacionada dentro de seu próprio estado emocional.

As divisões em capítulos ajudam a evidenciar essa questão. Inicialmente, sugerem um processo de transformação, como se cada segmento representasse uma nova etapa na jornada das personagens. Porém, conforme o filme avança, essas separações começam a perder relevância dramática. Em determinado momento, ainda no meio do filme, um capítulo não se fecha e ele permanece o mesmo até o final do longa – dando a sensação que alguém esqueceu de fechar esse arco que foi aberto.

Isso de certa forma, dialoga com a conclusão do longa, que, necessariamente precisa confirmar aquilo que parecia estar sendo preparado ao longo da trajetória O que desperta reflexão em Cinco da Tarde não é a recusa em oferecer uma resolução, mas a impressão de que, em determinado momento, o filme abandona as pistas que vinha construindo sem substituí-las por novas perguntas ou inquietaões.

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O percurso passa a transmitir uma sensação curiosa de deriva. E essa deriva dialogue diretamente com a própria linguagem adotada pela obra. O filme está interessado em habitar estados emocionais mais do que em conduzir transformações narrativas. Sua lógica não é a do avanço, mas a da permanência.

Ao mesmo tempo, permanece a impressão de que há um filme melhor escondido entre os cômodos desses apartamentos. Um filme que surge em momentos específicos, quando a delicadeza encontra profundidade e quando a contemplação produz descobertas genuínas. Esses instantes aparecem ao longo da narrativa, mas nem sempre encontram continuidade suficiente para sustentar o conjunto.

Cinco da Tarde permanece em uma zona de tensão bastante particular. Entre a influência e a identidade própria. Entre a observação e o envolvimento. Entre o recomeço prometido e a hesitação de segui-lo até suas últimas consequências. Essa sensação de busca inacabada que continue ecoando depois dos créditos. Não porque o filme encontre respostas para suas inquietações, mas porque transforma a dificuldade de encontrá-las em parte fundamental de sua própria experiência.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.