Misturar plataforma e música não é exatamente uma novidade nos videogames, mas SURI: The Seventh Note tenta levar essa combinação além. No jogo de estreia da Tathvamasi Studios, a música dita o ritmo dos movimentos, influencia os desafios e faz parte da própria identidade do mundo.
Para esta análise, o Conecta Geek também teve a oportunidade de entrevistar Glen Martin, CEO e diretor de jogo do estúdio, que compartilhou detalhes sobre as inspirações e os desafios por trás do desenvolvimento.
Uma árdua jornada à procura de uma cura
A história acompanha Ajira em uma busca por uma fruta rara que pode salvar sua mãe de uma doença. A protagonista já perdeu o pai para a mesma enfermidade, o que torna sua jornada ainda mais pessoal. Conforme explora a ilha de Suri, porém, ela descobre que existe algo muito maior por trás de sua missão: uma corrupção que ameaça o equilíbrio daquele mundo.
A mudança de escala dá outro rumo ao andar dos acontecimentos do jogo, mas é a própria ilha que desperta a curiosidade. Em Suri, o ritmo faz parte das regras que governam o lugar. Isso não fica restrito à história, já que a música também determina como você se movimenta e interage com os cenários.
Em entrevista ao Conecta Geek, Glen Martin, CEO e diretor de jogo da Tathvamasi Studios, explicou que a equipe sempre quis construir um mundo próprio. A corrupção e sua origem já faziam parte da ideia inicial, mas os desenvolvedores perceberam que precisavam de uma motivação pessoal para conduzir a narrativa. Assim, a busca de Ajira começa como uma tentativa de salvar a mãe e, aos poucos, se transforma em uma jornada que pode mudar o destino de toda a ilha.

A música dita as regras das suas ações
A principal característica de SURI: The Seventh Note está na jogabilidade. Saltar, desviar de obstáculos e interagir com o ambiente exige atenção ao ritmo da trilha sonora, que age junto com você e tem papel fundamental na movimentação.
Curiosamente, essa ideia surgiu depois que uma primeira tentativa não deu certo. Martin explicou que o estúdio começou desenvolvendo um jogo de ação em 2D e tentou adaptar o combate rítmico de Sekiro: Shadows Die Twice. Como a mecânica não funcionou como esperado, a equipe decidiu aproveitar o que já havia construído em outra proposta, dessa vez inspirada em 140 e Rayman Legends.
A equipe chegou a descartar todo o sistema de movimentação que havia desenvolvido inicialmente, e o modelo convencional, baseado em tempo e velocidade, não funcionava bem para a proposta. A solução foi organizar os movimentos a partir de distâncias e intervalos musicais, usando 480 milissegundos como referência para sincronizar movimentação, animações e interações.
Isso não só explica como o ritmo é tão presente e tão importante para o funcionamento do jogo, como também cria uma relação de que, quando você entende a lógica de uma sequência, os movimentos começam a fluir e os obstáculos justamente parecem fazer parte de uma música. É uma sensação muito satisfatória, especialmente quando passamos por um trecho de plataforma complicado sem perder o compasso.

A dificuldade pode atrapalhar o ritmo
Um dos pontos que acaba entrando no conjunto da obra é a precisão, que é ingrediente indispensável tanto em jogos de ritmo quanto de plataforma. E SURI exige bastante precisão em alguns momentos. Não basta saber quais comandos você precisa fazer, você também precisa entender os padrões musicais e agir no momento certo. Para quem não está acostumado com jogos rítmicos, essa combinação pode levar algum tempo para engrenar e pegar o jeito.
Na entrevista ao Conecta Geek, Martin reconheceu que equilibrar a dificuldade foi uma das partes mais trabalhosas do desenvolvimento. A equipe analisou separadamente a complexidade dos comandos e a dificuldade de acompanhar a música. Também testou o jogo com pessoas de diferentes níveis de experiência, desde amigos e familiares até desenvolvedores de outros estúdios e equipes de avaliação da Sony.
A intenção era começar com comandos simples, dando ao jogador tempo para se acostumar com o ritmo antes de introduzir combinações mais difíceis. Novas armadilhas e mecânicas também apareciam primeiro em situações isoladas, para depois serem combinadas com elementos que o jogador já conhecia.
É uma abordagem que faz sentido, mas não resolve todos os problemas. Algumas passagens ainda exigem tentativas demais, e repetir o mesmo trecho várias vezes pode cansar. Para quem gosta de dominar mecânicas e aprender com os próprios erros, esse desafio pode ser parte da diversão. Para quem prefere uma progressão mais tranquila, porém, a dificuldade pode acabar se tornando um obstáculo indesejado.

Explorar a ilha é parte da diversão
Fora dos desafios rítmicos, SURI: The Seventh Note apresenta um mundo interconectado que lembra bastante a estrutura de um metroidvania. Novas habilidades permitem alcançar áreas antes inacessíveis, enquanto caminhos alternativos e segredos incentivam a exploração.
Conforme Ajira desbloqueia novas habilidades, nós passamos a enxergar os cenários de outra maneira e conseguimos alcançar lugares que antes pareciam fora de alcance, algo típico do gênero. A progressão não depende apenas de derrotar inimigos ou avançar pela história, mas também da curiosidade de descobrir o que cada região esconde, e vai por mim, você vai ficar curioso.
Além disso, o jogo conta com batalhas contra chefes que exigem atenção total aos padrões de ataque e ao momento certo de agir. E claro, sequências de fuga que trazem momentos mais cinematográficos, nos quais é preciso reagir rapidamente enquanto o cenário e a música conduzem tudo.

Um jogo culturalmente muito rico
Um dos aspectos mais interessantes de SURI: The Seventh Note é a maneira como ele usa referências culturais indianas para construir seu universo. Os cenários têm cores vibrantes, arquitetura detalhada e estilos visuais que variam de acordo com as regiões da ilha. A arte desenhada à mão ajuda a criar um aspecto único para esse mundo, sem deixar que os ambientes pareçam todos iguais.
Isso se deve muito pela forma que a equipe escolheu suas referências. Martin explicou que os desenvolvedores primeiro definiram os biomas que gostariam de explorar e, depois, pesquisaram a biodiversidade, as culturas e as histórias de cada região do subcontinente indiano.
O deserto, por exemplo, recebeu influências da cultura e da arquitetura rajput. Nas florestas, a equipe pesquisou tradições tribais de Kerala e a estética do Theyyam, enquanto as áreas montanhosas incorporaram referências da arquitetura de Sikkim.
O estúdio também tomou uma decisão importante ao desenvolver a mitologia do jogo. Em vez de reproduzir diretamente personagens e histórias religiosas indianas, a equipe preferiu estudar essas tradições e usá-las como inspiração para criar algo próprio, o que ajuda ainda mais a dar personalidade ao universo de SURI.

A música conduz Suri, mas também nos conduz
A trilha sonora tem um papel tão naturalmente importante que a equipe precisou adaptar suas inspirações musicais às necessidades da jogabilidade. Segundo Martin, os desenvolvedores tentaram inicialmente aproveitar estruturas da música carnática e hindustani, mas encontraram dificuldades para encaixá-las nos intervalos exigidos pelas mecânicas de ritmo.
A solução foi aproveitar os sons e as texturas dessas tradições para criar composições próprias, organizadas em uma estrutura rítmica mais rígida. Assim, a música mantém suas referências culturais sem comprometer a sincronização dos movimentos.
No PlayStation 5, essa integração ganha um recurso interessante com o Rhythm Haptics Engine, sistema que usa a resposta tátil do DualSense para transmitir a música ao jogador.
Martin explicou que a equipe queria que fosse possível ouvir, enxergar e sentir o ritmo. No início, o controle apenas vibrava em intervalos fixos, como um metrônomo. Depois, os desenvolvedores criaram um sistema capaz de enviar partes da própria música aos atuadores do DualSense. Na versão final, chegaram a produzir uma versão tátil da trilha, pensada especificamente para ser sentida pelas mãos. É um uso interessante do controle, principalmente pela forma como esses recursos ajudam na imersão.
Uma boa estreia, apesar dos tropeços
SURI: The Seventh Note é o primeiro jogo comercial da Tathvamasi Studios e recebeu apoio do PlayStation India Hero Project. Para uma estreia, o projeto mostra bastante personalidade, principalmente na maneira como conecta música, exploração e referências culturais.
Martin também comentou que o desenvolvimento ensinou à equipe a importância de saber o que deixar de fora. No começo, os criadores queriam experimentar várias ideias na Unity, mas perceberam que adicionar mais elementos nem sempre tornava o jogo melhor. Era necessário identificar o que fazia a experiência funcionar e manter o foco nisso.
A relação entre música e movimentação é o melhor exemplo dessa filosofia. A direção de arte e a trilha sonora também ajudam a dar vida à ilha, enquanto o uso do DualSense acrescenta uma camada que combina com a proposta. São escolhas que fazem o jogo se destacar mesmo quando suas mecânicas seguem caminhos conhecidos.
A dificuldade, por outro lado, pesa bastante na experiência. Algumas sequências exigem tanta precisão que a repetição começa a cansar, e nem sempre a satisfação de superar o desafio compensa o tempo gasto tentando. É uma pena, porque o mundo de Suri tem elementos suficientes para despertar a vontade de continuar explorando sem que a dificuldade precise ser tão frustrante.
Ainda assim, SURI: The Seventh Note é um projeto dotado de muito carinho e orgulho que definitivamente merece sua atenção. A dificuldade pode testar a paciência, sim, mas a combinação de plataforma rítmica, exploração e a presença fortíssima da cultura indiana dá ao jogo uma identidade própria e muito charmosa, difícil de ignorar. Para quem – assim como eu – ama jogos rítmicos, é uma experiência indispensável.
SURI: The Seventh Note será lançado oficialmente em 30 de outubro de 2026 para PlayStation 5 e PC (via Steam).
Agradecimento ao estúdio por nos fornecer uma cópia para review.
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