Púlpitos, vasos sanitários assassinos e conspirações nucleares no sertão parecem elementos incapazes de coexistir dentro de uma mesma seleção de filmes. Ainda assim, Justino: Nos Bastidores do Reino, Privadas de Suas Vidas e Yellow Cake encontram pontos de contato ao explorar indivíduos confrontados por forças que ultrapassam seu controle, sejam elas instituições religiosas, traumas pessoais ou interesses políticos e científicos. Entre o drama, o horror e a ficção científica, os três longas brasileiros observam personagens tentando encontrar sentido em ambientes atravessados por crenças, conflitos e disputas de poder, revelando diferentes facetas de um cinema nacional cada vez mais interessado em transformar inquietações coletivas em experiências particulares e até mesmo fantasiosas.
Justino: Nos Bastidores do Reino

Justino: Nos Bastidores do Reino entende que seu alvo não é a fé, mas o mercado erguido ao redor dela. Mais do que uma cinebiografia, o longa funciona como o retrato de um ambiente onde carisma vira capital, devoção se converte em influência e a promessa de salvação passa a circular na mesma lógica de qualquer outra mercadoria.
O grande mérito de José Eduardo Belmonte está em contar essa história a partir de alguém que acreditava genuinamente no que dizia. Mário Justino não entra em cena como um golpista em formação. Surge como um rapaz talentoso, dono de uma oratória rara e de uma convicção que contagia multidões. Essa escolha muda tudo. O filme não acompanha a ascensão de um vigarista, mas a corrosão gradual de um homem que se transforma em peça de uma engrenagem maior do que ele próprio.
A construção dramática é eficiente justamente porque compreende que os grandes colapsos morais nascem de pequenas renúncias. O personagem aceita uma primeira contradição, depois uma segunda, e logo desaparece a distância entre aquilo que prega e aquilo que pratica. O roteiro, escrito por Belmonte ao lado de Ewerton Belico e Sérgio Moriconi, articula esse processo com inteligência, transformando Justino em uma alegoria da própria expansão neopentecostal brasileira nas décadas de 1980 e 1990: um movimento impulsionado por fé legítima na base e por ambições cada vez mais evidentes no topo.
Christian Malheiros sustenta esse percurso com uma atuação de enorme maturidade. Seu trabalho nunca procura justificar o protagonista nem condená-lo. O ator encontra uma medida precisa entre ingenuidade, desejo de pertencimento e ambição pessoal. Justino é um personagem complexo, incapaz de ser reduzido a herói ou vilão. Quanto mais ele sobe na hierarquia religiosa, mais evidente se torna sua fragilidade emocional, especialmente na busca incessante por reconhecimento de figuras masculinas que ocupam posições de autoridade.
Visualmente, o longa alcança alguns poucos momentos de grande inspiração. A fotografia de Leslie Monteiro utiliza cores, contrastes e feixes de luz para traduzir sedução e desencanto sem depender de diálogos explicativos. Os púlpitos, corredores e galpões assumem uma dimensão quase teatral, como se cada espaço fosse parte de um enorme espetáculo cuidadosamente encenado. A estética reforça uma ideia central da narrativa, onde, naquele universo, aparência e verdade caminham raramente juntas.
Nem todas as decisões funcionam com a mesma intensidade. O segmento final se estende além da conta e perde parte da concentração dramática construída anteriormente. Ainda assim, a obra recupera sua força ao deslocar o protagonista para ambientes onde o acolhimento deixa de ser discurso e passa a ser prático. O filme começa acompanhando um jovem que acredita ter encontrado Deus dentro de uma estrutura religiosa poderosa. Termina mostrando que, ao abandonar os palcos, os títulos e os intermediários da fé, ele finalmente encontra aquilo que passou a vida inteira procurando.
Privadas de Suas Vidas

Todo grande filme de horror precisa responder a uma pergunta fundamental: do que estamos rindo quando sentimos medo? Em Privadas de Suas Vidas, Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner encontram uma resposta tão simples quanto desconfortável. Estamos rindo de nós mesmos. Dos nossos constrangimentos, das nossas neuroses coletivas e, principalmente, da insistência em transformar necessidades humanas básicas em temas cercados de vergonha. Não por acaso, o longa escolhe o banheiro como palco de sua tragédia grotesca.
Privadas se transformam em instrumentos de morte enquanto uma mãe tenta sobreviver ao luto, aos conflitos familiares e ao colapso emocional provocado por uma vida que se recusa a seguir em frente. O mais curioso é que o filme nunca trata esses elementos como mundos separados. O trauma de Malu (Martha Nowill) não existe apesar da escatologia. Ele se manifesta por meio dela. Sua prisão de ventre deixa de ser apenas uma condição física para se tornar uma materialização concreta da dor, do remorso e da incapacidade de elaborar perdas. Enquanto boa parte do horror contemporâneo procura transformar traumas em metáforas sofisticadas, Privadas de Suas Vidas resolve transformá-los em gases, entupimentos e vasos sanitários assassinos.
Essa disposição para abraçar o absurdo aproxima a obra de um cinema fantástico que nunca teve vergonha de ser excessivo, vulgar e divertido. Os efeitos práticos assumem orgulhosamente sua artificialidade. Corpos falsos, animatrônicos e soluções visuais deliberadamente toscas não aparecem como limitações de produção, mas como escolhas estéticas. O artifício vira parte da piada.
O mesmo princípio orienta seus personagens. O prédio onde a história acontece funciona como uma pequena caricatura do Brasil contemporâneo, povoada por influenciadores, oportunistas, figuras místicas, trabalhadores exaustos e pessoas incapazes de ouvir umas às outras. A incomunicabilidade surge como um dos temas centrais da narrativa. Não importa quantas vezes os personagens dividam o mesmo espaço: quase todos permanecem presos às próprias certezas. O conflito entre Malu e Gênesis representa a face mais íntima dessa dificuldade de escuta, mas ela se espalha por toda a vizinhança.
O aspecto formal acompanha essa proposta com inteligência. A encenação frequentemente privilegia planos que mantêm múltiplos personagens dentro do mesmo quadro, permitindo que os conflitos surjam da ocupação do espaço e não apenas dos diálogos. Quando a violência assume tons cartunescos, a câmera se afasta e observa o caos com ironia. Quando o horror exige desconforto genuíno, ela se aproxima dos corpos e transforma o grotesco em matéria física. É um controle de linguagem mais sofisticado do que a aparência anárquica do filme sugere.
Por trás das piadas escatológicas, das mortes absurdas e do humor deliberadamente vulgar existe um filme sobre vulnerabilidade. Afinal, o ponto de partida da história é uma verdade impossível de contornar: não importa quem somos, quais causas defendemos ou quais máscaras usamos para atravessar o cotidiano, todos os corpos cobram suas contas da mesma maneira. Vinagre e Gewdner entendem que o horror pode nascer desse reconhecimento constrangedor. No fim das contas, diante da privada, ninguém é mais especial do que ninguém.
Yellow Cake

É fascinante assistir a um filme que faz força para parecer urgente enquanto esconde quase todas as informações que tornariam essa urgência compreensível. Yellow Cake opera exatamente nessa frequência. Seus personagens correm, gritam, fazem ligações aflitas, interrompem reuniões e anunciam catástrofes iminentes com a seriedade de quem carrega o destino da humanidade nos ombros. O espectador, porém, passa boa parte do tempo tentando descobrir o motivo de tanto desespero.
A premissa reúne ingredientes que, isoladamente, possuem enorme potencial. Um projeto científico envolvendo urânio enriquecido. Uma tentativa de combater a dengue. Interesses governamentais obscuros. Cientistas estrangeiros circulando pelo sertão nordestino. É o tipo de conceito que poderia gerar uma ficção científica profundamente brasileira, capaz de transformar o mosquito mais famoso do país em símbolo de paranoia tecnológica e desastre ambiental, mas o roteiro escolhe embaralhar suas melhores cartas até que nenhuma delas tenha espaço suficiente para produzir impacto.
O principal exemplo dessa fragilidade está em Rúbia. Rejane Faria entrega uma atuação disciplinada, concentrada e comprometida como sempre, mas sua personagem atravessa o filme como um enigma sem recompensa. Não porque exista uma camada misteriosa a ser descoberta, mas porque o roteiro simplesmente negligencia sua construção. Sabemos o que ela faz. Nunca entendemos quem ela é. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Essa dificuldade de estabelecer vínculos se espalha pela narrativa inteira. Os personagens surgem menos como indivíduos e mais como funções dramáticas: a cientista, o americano suspeito, o político invisível, o morador revoltado. Não ajuda o fato de que o longa pareça constantemente assombrado pela sombra de “Bacurau”. Os estrangeiros gananciosos, a tensão entre interesses externos e a população local, a atmosfera de invasão e ameaça fazem lembrar uma obra muito mais segura de suas próprias alegorias.
A direção de Tiago Melo tenta compensar essa fragilidade dramatúrgica através do excesso formal. A fotografia investe em cores agressivas, granulações evidentes, closes sufocantes e paisagens amplas. A montagem, por sua vez, demonstra uma convicção curiosa de que velocidade equivale a tensão. Cenas começam atrasadas e terminam cedo demais. Personagens recebem informações decisivas e logo somos arremessados para outro ambiente antes que qualquer consequência emocional possa existir. Em alguns momentos, a edição não cria ritmo; cria atropelamento.
Mesmo assim, há vida em Yellow Cake. Ela atende pelo nome de Tânia Maria. Sempre que entra em cena, o filme abandona suas pretensões conspiratórias e encontra espontaneidade. Sua presença rompe a artificialidade que domina boa parte da encenação e lembra que personagens interessantes valem mais do que conceitos mirabolantes. O mesmo vale, em menor escala, para alguns rostos locais que parecem habitar um filme mais autêntico do que aquele que efetivamente chegou à tela.
Yellow Cake funciona como um curioso paradoxo. É um filme sobre contaminação cuja maior vítima acaba sendo a própria narrativa. Quanto mais elementos adiciona ao seu experimento, mais diluída fica sua identidade. O urânio, as conspirações, os cientistas, os interesses políticos e o mosquito da dengue disputam atenção até que nenhum deles consiga assumir o controle. E assim aquela ideia inicial, tão brasileira, tão estranha e tão promissora, permanece pairando no ar como uma nuvem radioativa: visível, intrigante e surpreendentemente difícil de tocar.
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